Materia New York Times - Traduzida
Data: 08/06/2010
Confira a matéria no jornal: http://www.nytimes.com/2010/06/08/world/americas/08models.html
Confira o Vídeo: http://video.nytimes.com/video/2010/06/08/world/americas/1247468006067/finding-supermodels-in-rural-brazil.html
Confira as Fotos: http://www.nytimes.com/slideshow/2010/06/07/world/0607MODELS.html
Restinga Seca Brasil – Antes de arrumar um carro rosa que combinasse com jardins de escolas e shopping centers do sul do Brasil, Alisson Chornak estuda livros, mapas e web sites para entender como as cidades foram colonizadas e como os descendentes de europeus parecem hoje em dia.
O Objetivo, ele e outro caçador de modelos afirmam, é achar a mistura genética ideal de ancestrais alemães e italianos, talvez com um pouco de sangue russo ou eslavo misturado. Tal mistura, afirmam eles, ajuda a produzir garotas altas, magras com cabelos lisos, pele e olhos claros que o Brasil exporta para as passarelas de Nova Iorque, Milão e Paris com um sucesso assombroso.
No entanto, o Brasil não é mais o mesmo que era em 1994, quando Gisele Bündchen, a modelo mais bem paga do mundo, foi descoberta em uma pequena cidade não muito longe daqui. Mulheres com a pele mais escura se tornaram proeminentes na sociedade brasileira, desafiando as noções de beleza brasileira e sucesso que Gisele começou a representar aqui e no exterior.
Taís Araújo encerrou agora seu papel como primeira atriz principal negra da novela das 20h. Marina Silva, ex ministra do governo nascida no Amazonas, está concorrendo para a presidência do Brasil. E no decorrer da última década a quantidade de mulheres brasileiras negras aumentou em 40%, mais que o dobro da taxa de mulheres brancas, pois a economia do Brasil está forte, providenciando uma classe negra consumidora, afirma o economista Marcelo Neri.
Até mesmo promotores públicos entraram no debate sobre como é a aparência do brasileiro – e com esta deve ser representada. O São Paulo Fashion Week, o evento de moda mais importante do Brasil, foi forçado por promotores públicos locais a garantir que pelo menos 10% dos modelos fossem afro brasileiros ou descendentes indígenas.
Apesar destas mudanças, mais da metade das modelos continuam a ser descobertas aqui entre pequenas fazendas do Rio Grande do Sul, um estado que possui somente 1/20 da população brasileira e foi colonizado predominantemente por alemães e italianos.
Pesquisadores afirmam que 70% das modelos brasileiras são nativas dos três estados do sul, que mal reflete a população multi-étnica que existe no país, onde mais da metade da população é “não branca”.
Nas páginas das revistas, o spectrum da beleza brasileira é mais claro. Mulheres “não brancas”, incluindo celebridades de tipos de corpo variados, são intercaladas com modelos brancas. Mas nas passarelas, a prova final para modelos estourarem no exterior, a diversidade cai vertiginosamente. Promotores que investigam discriminação reclamaram do São Paulo Fashion Week, pois somente 28 dos 1,128 modelos eram negros em 2008.
O padrão cria uma desconexão entre o que muitos brasileiros consideram bonito e a beleza que é exportada para o resto do mundo. Enquanto atrizes com a pele mais escura como Juliana Paes e Camila Pitanga são consideradas mais sexy entre os brasileiros, é Gisele Bündchen e suas conterrâneas sulistas que ganham a fama no exterior.
“Eu sempre fiquei perplexa em ver que o Brasil nunca pôde exportar uma Naomi Campbel, e definitivamente não é por falta de mulheres bonitas” afirma Erika Palomino, consultora de moda em São Paulo “Isso é vergonhoso”.
Alguns caça modelos começaram uma incursão tépida em partes menos brancas do Brasil. O estilista brasileiro, Walter Rodrigues, recentemente abriu o Rio Fashion Week com 25 modelos, todas elas negras.
Mas aqui no sul, os caça talentos ainda passam a maior parte do seu tempo procurando a próxima Gisele, e providenciam diversas desculpas para o que eles dizem que vende mais.
Clóvis Pessoa estuda traços faciais que fazem sucesso nas passarelas de todo o mundo e procura nas cidades do sul os genes que carregam estes traços.
“Se uma modelo famosa parece alemã com um nariz russo, eu farei um estudo científico e procurarei por cidades que foram colonizadas por alemães e russos no sul do Brasil, com a finalidade de encontrar uma face similar aqui embaixo”, afirma Clóvis.
Dílson Stein, que descobriu Gisele Bündchen quando ela tinha somente 13 anos, chamou o Rio Grande do Sul de “tesouro das meninas dignas de se tornarem modelos”. Um ano antes de descobrir Gisele, no qual os pais são de ascendência germânica, ele encontrou Alessandra Ambrósio de 12 anos, famosa hoje em dia por suas fotos para Victoria’s Secret.
Hoje em dia, novos caça modelos, como Alisson Chornak tiraram o manto. Rápido como um gato Alisson saiu andando atrás de uma menina alta com moletom gasto. “Você já pensou em ser modelo?” perguntou à menina de 13 anos com espinhas no rosto. A menina sorriu, reluzindo seu aparelho ortodôntico.
Mai tarde, Alisson visitou uma escola onde a diretora Liliane Abrão Silva mostra álbuns de concursos de beleza que a escola realiza. A diretora permite a visita de caça modelos fora do período de aulas.
“Desde que estou nesta escola cinco meninas já saíram para se tornar modelo em São Paulo”, disse Liliane. “As meninas que não têm dinheiro para ir à Universidade terão de ficar aqui e trabalhar nos campos”.
Na manhã seguinte, Alisson estudou as meninas, que retornavam às aulas com pirulitos vermelhos. “Não há nada de especial aqui”, declarou.
Em outra parada, Alisson se instalou nos portões de uma escola em Paraíso do Sul (população de 8,000) com s ferramentas de seu trabalho: cartão de visitas, fita métrica e notebook.
O sinal tocou e os alunos saíram. Alisson parou uma menina alta e loira. Em questão de segundos eles estava ajeitando o cabelo da menina, tirando suas medidas e dando direções para ela pousar para uma foto contra a parede.
Alisson também visitou a cidade de Venâncio Aires, onde o outdoor de entrada da cidade já afirma “A terra das mulheres fantásticas”, fazendo alusão a um programa de televisão apresentado por uma menina nascida na cidade.
Em uma pequena plantação de fumo ele visitou Michele Meurer, uma bela garota de 16 anos com lindos olhos azuis descoberta enquanto ia de bicicleta à escola. Tímida e simples, Michele chorou compulsivamente na primeira vez que foi a São Paulo. Da próxima vez ela durou seis dias, até Alisson mandá-la de volta para casa.
A mãe de Michele, que cresceu falando alemão, nunca havia saído da cidade até a viagem a São Paulo. Elas moram em uma casa de quatro cômodos com galinhas e cachorros. A geladeira da casa fica no quarto de Michele por falta de espaço.
Alisson aconselha Michele a usar protetor solar enquanto trabalho na lavoura e cuidar muito da sua alimentação. Orgulhosos, seu pai a matriculou em aulas de inglês caso ela viaje ao exterior. “Eu quero dar a eles uma vida melhor”, afirmou Michele falando de seus pais.
Recentemente ela foi novamente a São Paulo, onde Alisson a colocou em um apartamento de três quartos com outras 11 garotas. Duas semanas antes do São Paulo Fashion Week, Michele fez as malas e voltou para casa.
“Fiquei muito desapontado com a desistência de Michele” afirmou Alisson. “Investi muito nela”.
Myrna Domit contribuiu para a reportagem.
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